Antigamente no mês de Março a chuva caia aos potes, eram as águas que se tornavam enchentes e que eram chamadas de Enchente das Goiabas; aquele exagero de água formava cascatas onde em tempo normal só existia modestos ribeirões, eram enchentes alegres, porque as goiabeiras silvestres se enchiam de flores e depois de suculentas frutas.
Aquelas dadivosas goiabeiras não pertenciam a ninguém, nasciam com a força da natureza e com a ajuda dos pássaros, que espalhavam suas sementes por todos os lados e quando as frutas amadureciam era tempo de comer e as mulheres e crianças se espalhavam alegremente pelos campos com grandes balaios e colhiam aquele perfumado presente de Deus.
As senhoras ricas ou remediadas, não saiam a cata das goiabas, mas compravam as frutas das menos favorecidas; a medida para vender era uma lata de vinte litros que vinha com querosene e era bem limpa antes de ser usada e depois da compra, todas as donas de casa partiam para suas cozinhas para preparar goiabada cascão ou de massa fina e deliciosas geleias.
O preparo dessas delicias era trabalhoso e todos os componentes das familias trabalhavam: as crianças abriam as goiabas e retiravam as sementes e os adultos cuidavam de cozinhá-las em tachos de cobre e passá-las por grandes peneiras de taquara, para depois medir a massa, colocar o açucar e levar ao fogo dos fogões de lenha, para preparar o doce.
Durante horas seguidas, as pessoas se revezavam mexendo a mistura com grandes pás de madeira, até dar o ponto certo para corte ou compoteiras; depois dos variados tipos de goiabada ficarem prontos, se voltavam para o preparo da geléia e era hora de coar as sementes na peneira e levar o suco ao fogo com açucar e mexer até o ponto de geléia.
As pequenas cidades e vilas do interior, se tornavam festivas com com a chegada da Enchente das Goiabas e era um prazer andar pelas ruas, porque o doce cheiro dos tachos nos fogões, se espalhavam por todos os lados dia e noite e rendia serviço também para os carpinteiros, que trabalhavam dobrado fabricando as caixas para colocar o doce.
As caixas eram forradas com papel celofane e o doce era ali colocado e depois de frio as caixas eram fechadas com uma tampa de correr feita de madeira e empilhadas nas despensas para o consumo do ano inteiro, mas Março chegava ao fim e com ele as enchentes terminavam e as goiabas também e o delicioso cheiro de goiabada sumia do ar.
Os grandes tachos de cobre, as peneiras de taquara e as enormes pás de madeira eram bem lavadas, secas e cuidadosamente guardadas para a chegada das Águas de Março do proximo ano, com sua bem-vinda Enchente das Goiabas; agora a natureza agredida se vinga de todas as maneiras e já não se tem nem enchente e nem a saudosa Safra das Goiabas.
Maria Aparecida Felicori { Vó Fia }
22/07/2012
22/07/2012




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